Vexame para a Argentina escancara uma Seleção morta-viva em campo A evolução que Dorival jura que vê na Seleção não existe. O baile que a Seleção Argentina deu no Brasil foi a sentença de um trabalho que interpreta lampejos esparsos como um farol capaz de direcionar o coletivo a alguma identidade de jogo - que não existe. A Seleção Brasileira é um amontoado de peças que juntas não tomam forma alguma, não se conversam, não combinam, não se encaixam. É um futebol morto-vivo sem consciência para onde caminha. É um Frankenstein.
Argentina x Brasil
JUAN MABROMATA / AFP
O constrangimento transcende a derrota. É constatar que a Seleção pentacampeã se tornou uma aberração futebolística tamanha que sequer alguém consegue explicar que futebol é esse que o time está jogando.
Mas ser nocauteada pelo rival precisa suscitar uma avaliação aprofundada sobre o problema crônico que acomete a Seleção Brasileira: o desalinhamento de ideias. A Seleção não sabe o que quer executar, que futebol quer jogar e de que maneira vai realizá-lo. E isso vai muito além de Dorival.
A Seleção pós Tite é desenvolvida num desamparo de convicção, por isso é desencaixada, é monstruosa. Parte do princípio de quem decide as trocas de comando técnico da Seleção Brasileira, acomete os treinadores escolhidos e aparece no campo, com peças que não conseguem produzir coletivamente. Ali nas quatro linhas, o constrangimento é geral: o Brasil é facilmente manipulado pelo adversário expondo para o mundo a fragilidade e a ingenuidade de um organismo meio vivo que sofre para ser consciente em campo. Quando a escolha de treinadores não é pautada na convicção de jogo, as rupturas são bruscas e contrastantes. O resultado é o desencaixe.
Independente de julgar Dorival preparado ou não para o cargo, seria muito mais fácil para qualquer treinador ter assumido a Seleção logo após a Copa de 22 do que ter que ser responsável por recuperar uma equipe que já estava destruída. Tite entregou a Seleção com uma base consolidada de trabalho, ainda que eu entendesse ser necessária uma atualização na ideia de jogo. Depois que um time se esfacela, é complicadíssimo construir identidade, ainda mais com pouco tempo para treinar.
Argentina 4 x 1 Brasil | Melhores momentos | 14ª rodada | Eliminatórias da Copa 2026
Além disso, os treinadores escolhidos nesse tempo tinham perfis bastante distintos de jogo, ou seja, por parte da Confederação inexiste um propósito. São decisões que parecem ser muito mais tomadas pela pressão por mudança e conveniência de treinadores livres no mercado do que por acreditar numa forma de praticar futebol.
Então caímos no ponto crucial: qual é a forma que a Seleção tem que jogar? O futebol brasileiro é carente de um modelo próprio de jogo, usurpando conceitos estrangeiros porque foi incapaz de desenvolver uma escola própria de acordo com as características dos jogadores revelados aqui, com craques que traziam a qualidade do futebol da rua a fim de ser aperfeiçoado na base. Pelo contrário, o que Brasil fez foi aceitar encaixar nossos jogadores num jogo que não é essencialmente nosso. E hoje somos deficientes exatamente naquilo que éramos referência mundial: a formação de meias.
É a própria CBF que deveria zelar por uma Seleção que representasse em campo um jogo cuja essência fosse brasileira, ao invés de contribuir para o desenvolvimento de uma Seleção que hoje é bizarra.
Bem, aí a discussão se aprofunda ainda mais: que essência brasileira é essa? O futebol artístico de outrora precisaria se rejuvenescer e se adaptar a um jogo mais veloz, sem dúvida. Sem uma mente genial que norteasse o desenvolvimento de uma escola brasileira de futebol, aceitamos a aniquilação de uma peça que pra mim é a resistência do futebol abrasileirado: o meia de cadência e passe. Ele é o jogador capaz de fazer um time se encaixar.
Sei que isso não é novidade pra ninguém. Eu mesma já discorri sobre esse tema em diversas colunas deste blog. No entanto, é indispensável levantar mais esse ponto na avaliação do problema crônico que culmina numa Seleção sem vida.
Não significa que colocando um camisa 10 as coisas se resolveriam como mágica. Antes fosse. Significa que a CBF deveria zelar, priorizar e se obstinar a desenvolver uma escola de futebol que promovesse uma ideia de jogo brasileira. Muito se debate sobre qual modelo seria esse, mas certamente ele precisaria elencar características de atletas que só nós revelamos (ou, pelo menos, que somos muito bons em revelá-los). A partir disso, passar a consolida-lo desde a base dos clubes através da formação de treinadores fiéis a esse determinado modelo.
Vai muito além do Dorival. Pra consolidar, de fato, uma Seleção Brasileira forte ao longo de muitas Copas só com sementes plantadas desde a base. Mas criar um organismo vivo e consciente dá bastante trabalho. É muito mais fácil demitir o Dorival e torcer para que o próximo treinador, quem quer que seja, dê alguma identidade, seja ela qual for.
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