Há algo de paradoxal nas sensações transmitidas pelo PSG, finalista da Liga dos Campeões após passar pelo Arsenal. Clube de recursos quase infinitos, propriedade do Qatar e veículo para polir a imagem de um país com histórico pobre no que diz respeito aos direitos e liberdades individuais, é assim mesmo capaz de transmitir um certo ar de frescor ao chegar à decisão. Possivelmente, tem a ver com uma radical guinada que, tão rapidamente, produziu resultados.
Há dois anos, o clube começava a desfazer o trio formado por Messi, Mbappé e Neymar após perceber que o resultado esportivo era bem inferior ao apelo midiático. Era como se o clube fosse uma junção de pequenos projetos individuais, sem uma linha mestra que os unisse como uma verdadeira equipe. O que se constatava, era a inviabilidade de os três talentos descomunais resultarem, juntos, num time equilibrado, competitivo. Pois esta é a principal marca do PSG na primeira temporada após a saída do último integrante do trio – Mbappé rumou para o Real Madrid em julho passado.
Este ar de frescor talvez venha de uma formação titular que tenha no multifuncional João Neves um meia de 20 anos, no versátil atacante Désiré Doué um jovem de 19, ou em Barcola um ponta de 22. Pacho e Nuno Mendes, talentos de uma defesa comandada pelo experiente Marquinhos, têm 23 e 22 anos, respectivamente.
Paris Saint-Germain 2 x 1 Arsenal | Melhores momentos | Liga dos Campeões 2024/25
Não que este PSG seja um time barato, afinal a ordem internacional do jogo praticamente não permite voos tão altos a times sem recursos: hoje, os títulos são exclusividade dos endinheirados. Kvaratskhelia, o empolgante talento georgiano, foi tirado do Napoli por 70 milhões de euros, enquanto Pacho custou 45 milhões, e João Neves, 60 milhões. Ocorre que os padrões estabelecidos no futebol parecem ter treinado nossos olhos para enxergar times de elite apenas onde há uma reunião de nomes estelares. E uma semifinal de Champions que teve consagrou PSG e Inter de Milão, além de ter o Barcelona como grande história da temporada, talvez tenha deixado outra mensagem.
Mais do que isso, a chegada do PSG à final mostra como o futebol é um jogo sem fórmulas prontas. Durante os últimos anos, o reinado do Real Madrid tinha a assinatura de individualidades mais do que de um time que parecesse sólido. Agora, o PSG menos estelar dos últimos anos foi transformado em uma máquina de competir, que consagra um futebol cada vez mais dependente de uma taxa de esforço que envolva os onze jogadores em campo. Esta, aliás, era uma marca dos quatro semifinalistas da Champions.
Não se trata de colocar nos ombros de um só jogador as razões para o PSG estar na final e o Real Madrid, atual clube de Mbappé, ter caído nas quartas. Mas alguns números chamam atenção. Por exemplo, os atacantes do time francês somaram, apenas na partida da última quarta-feira contra o Arsenal, 28 ações defensivas – o que inclui todas as tentativas de bloqueios, desarmes, interceptações e recuperações de bola. Mbappé, por sua vez, atravessou os 180 minutos do confronto contra o mesmo Arsenal com apenas duas.
O trabalho de Luís Enrique, que prometera fazer um time melhor sem Mbappé do que com ele, transformou o PSG numa máquina de pressionar. Nenhum time da Champions criou tantas finalizações a partir de recuperações de bola no campo ofensivo. Aliás, nenhum time do torneio recuperou tantas bolas, em qualquer setor do campo.
Não é dizer que o sucesso do PSG seja a negação do talento, porque ele existe em altas doses notime francês. Ainda assim, é evidente que a saída de Mbappé leva embora um jogador de exceção com a bola. E talvez nem seja justo dizer que o Real Madrid desta temporada sofreu apenas por ter Mbappé: a resposta talvez esteja no fato de que sua chegada tenha acrescentado um atacante a mais - e um meio-campista a menos - num time que já lutava contra sua própria tendência ao desequilíbrio. E Mbappé não é, digamos, o mais trabalhador dos atacantes. Enquanto o PSG avançava, ganhava o mundo a cena de um documentário em que Luis Enrique, numa conversa privada com o atacante, chamava de “catástrofe” sua participação defensiva.
O que a reta final da principal competição de clubes do mundo parece ter consagrado é a união do talento com o esforço. Vitinha, João Neves e Fabián Ruiz formam um trio de meias especialmente técnicos com a bola, mas também dinâmicos – ainda que os dois primeiros nem sejam fisicamente superpoderosos. No ataque, Doué surge como um atacante que desperta imensas expectativas, enquanto a temporada de Dembélé, convertido num falso 9 extremamente inteligente, o coloca entre os grandes jogadores do mundo nos últimos meses.
Ainda veremos times campeões que farão contorcionismos táticos para abrigar talentos de exceção, em torno dos quais será montada uma estrutura para que trabalhem menos. O futebol não tem manual de instruções, não despreza nenhum caminho para que se ganha jogos e títulos. Mas a Liga dos Campeões talvez nos tenha ensinado que ganhar desta maneira vá, pouco a pouco, se tornar mais raro.

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