Brasil tem longo caminho para percorrer, mas já parece saber de onde começar Mais do que garantir matematicamente a vaga da seleção brasileira na Copa do Mundo 2026, a magra vitória sobre o Paraguai, na Neo Química Arena, começou a revelar a ideia ofensiva que Carlo Ancelotti pretende implementar na equipe. E a função dada a Matheus Cunha ajuda a explicar muito do que foi buscado.
O atacante que acabou de ser contratado pelo Manchester United por quase 500 milhões de reais não atuou como centroavante na noite desta terça-feira. O Brasil teve Cunha, Vini Jr e Raphinha soltos e próximos pela faixa central, e Matheus em diversos momentos foi o jogador que mais transitou na zona de articulação das jogadas, deixando Vini e Raphinha levemente ''espetados'' na frente.
Negociado com o Sion, da Suíça, ainda na base do Coritiba, Cunha é um atacante central de boa mobilidade. Já partiu de um dos lados do campo em diversos jogos na carreira, mas sempre com o objetivo de transitar por dentro em fase ofensiva. Não funciona se escalado preso entre os zagueiros. Ancelotti mostrou entendimento daquilo que de fato o atleta é.
Esta, aliás, é principal faceta da carreira do experiente italiano, que como treinador sempre tentou adequar o funcionamento coletivo a partir das características mais fortes de seus principais jogadores. Não sabemos se Cunha terá sequência como titular, mas provou que pode oferecer capacidade de construção e boas dinâmicas com Vini e Raphinha nos metros mais próximos do gol.
Matheus Cunha alguns passos atrás em relação a Vini e Raphinha, mas compondo um trio de mobilidade central no ataque da Seleção
Reprodução de TV
Para que isso ocorresse, Martinelli e Vanderson foram os homens que geraram amplitude ao time. Alex Sandro fez a base da saída de bola junto aos zagueiros, e Casemiro e Bruno Guimarães trabalharam no meio-campo. Em diversos momentos, inclusive, Matheus Cunha foi visto alguns metros atrás de Bruno Guimarães quando o Brasil tentava se instalar no campo adversário.
É claro que a ocupação da área ofensiva ficou um pouco prejudicada. Esse não é exatamente o ponto forte de Vini Jr e Raphinha, apesar do gol marcado pelo primeiro. O próprio Matheus Cunha também poderia ter se projetado mais na área em jogadas terminadas pelos lados. Descoordenação natural de um primeiro jogo com tal formatação.
Em fase defensiva, Raphinha abria para marcar pelo lado direito, logo a frente de Vanderson, e Cunha dava o primeiro combate ao lado de Vini Jr. Martinelli retornava normalmente pela esquerda.
Ancelotti abraça Vini Jr. na comemoração do gol do Brasil contra o Paraguai, marcado pelo camisa 10
REUTERS/Jean Carniel
O Brasil tem muitas coisas para corrigir. Apesar de algumas boas ações de Bruno Guimarães no jogo, falta fluência e maior capacidade de construção na primeira linha do meio-campo. O time voltou a estar em apuros ao ser pressionado na saída de bola, e teve uma quebra grande de ritmo na 2ª etapa.
A partida diante dos paraguaios, no entanto, deixou uma sensação que esteve ausente nos últimos meses. Há a nítida ideia de onde se quer partir. Qual será o desfecho desta trajetória é impossível de prever, mas o primeiro passo, mesmo claudicante e tardio, foi dado na longa estrada da busca pelo hexa.

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