Ao falar em "maturidade" e "sustentabilidade", Textor citou os dois grandes adversários do alvinegro Os troféus sobre a mesa e o recurso frequente a frases como “somos os campeões da América e do Brasil” eram formas de John Textor defender sua forma de gerir o Botafogo. No entanto, era impossível olhar para a sua entrevista coletiva de sexta-feira e não enxergar um imenso choque cultural.
De um lado, estava um empresário americano falando sobre a inviabilidade de ser campeão em dezembro de 2024, estar pronto para competir por uma taça no início de fevereiro, duelar por outra no fim do mesmo mês, e permanecer forte até 21 de dezembro de 2025, quando termina a temporada brasileira. Do outro, estão uma arquibancada e uma opinião pública que, racionalmente, até reconhecem os rigores únicos do calendário nacional, mas que, uma vez começados os jogos, colocam os pensamentos racionais em modo de espera e exigem que se vença assim mesmo.
Ali estava um americano não apenas lembrando o público brasileiro da representatividade do que se conquistou há dois meses. Mas, acima de tudo, com alguma dificuldade para entender como uma Libertadores e um Brasileiro catárticos para uma torcida que sofrera por tanto tempo já não servem mais para aplacar a irritação do público.
Textor pede troféus da Libertadores e do Brasileirão na sala de entrevistas
Em conflitos assim, quase sempre há um meio termo entre as duas visões. Textor defende que os mais de 50 dias sem treinador privilegiaram a busca por um nome que trouxesse convicção. Faz sentido, afinal a insegurança e a falta de critério com que se escolhe treinador no Brasil costumam ser as sementes de demissões precoces. No entanto, a comparação com 2024, quando Artur Jorge chegou para a segunda rodada da Libertadores, pode servir para Textor se defender, mas não deve ser usada como regra. O Botafogo perdeu dois meses de trabalho de uma comissão técnica definitiva. É um prejuízo. Na melhor das hipóteses, 2024 serve para mostrar que a perda não condena o ano alvinegro. Mas ajudar, não ajuda.
E também é fato que o ano pedia algo mais de agilidade de um clube com processos tão centralizados num dono. É justo pedir crédito à torcida, mas também é preciso ser sensível a um público que dava importância à Supercopa do Brasil ou à Recopa, ainda que estas sejam taças menos nobres do que as disputas que virão. A grande questão não foi deixar de ganhar as duas taças, mas não ter a sensação de que os títulos escaparam enquanto algo se construía.
O ponto fundamental, no entanto, parece exceder o debate sobre o treinador. Textor argumentou que seu projeto no Botafogo não atingiu o que chamou de “maturidade”, e em seguida usou o termo “sustentabilidade”. Estas duas palavras representam, hoje, os grandes adversários do Botafogo em seu projeto de disputar títulos ano a ano, com constância.
Primeiro, pelo aspecto econômico. O Botafogo ainda não tem uma base que faça grandes vendas, equilibre a balança de transferências do clube ou componha parcela importante do elenco. Além disso, compete por taças com clubes que arrecadam muito mais do que ele. O custo do time campeão de 2024 ou os R$ 500 milhões já gastos em 2025 em contratações são um peso muito grande diante da capacidade atual alvinegra de gerar receitas de forma orgânica.
Mas a questão é também técnica. O Botafogo do ano passado tinha nove dos onze titulares contratados na própria temporada de 2024. Agora, o time perdeu seus dois principais jogadores e um punhado de opções imediatas de elenco. Ter tantas trocas é um permanente desafio de prospecção, mercado, scout. Por mais estruturado que seja o clube para fazer tal trabalho, a margem de erro sempre estará presente. A permanente reconstrução é um caminho tortuoso.
A formação do elenco atual é um ingrediente importante na sensação de incômodo da arquibancada. Claro que é dificílimo igualar o status de jogadores como Almada Luiz Henrique e até Júnior Santos, que deixaram o clube não apenas como nomes de peso, mas como protagonistas do maior ano da história do Botafogo. No entanto, o impacto das chegadas, ao menos por ora, parece menor do que o das saídas.
O calendário deu ao Botafogo uma nova chance de começar seu 2025. Renato Paiva chega com 30 dias pela frente e a possibilidade de fazer um coletivo que mude percepções e permita à torcida enxergar em Santiago Rodríguez, Artur ou Nathan Fernandes substitutos à altura. Times supercampeões impõem padrões que, por vezes, parecem cruéis. Não é justo fazer da repetição de um ano mágico, algo improvável para qualquer clube, o único padrão de sucesso.

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