Luighi, um garoto de 18 anos que sonha com o sucesso no futebol, se viu obrigado a carregar todas as atribuições que não deveriam ser dele por simplesmente ser negro Luighi, do Palmeiras, comenta ataques racistas sofrido no Paraguai
Emmanuel Acho é um homem negro retinto, filho de imigrantes nigerianos, nasceu e cresceu em Dallas, no Texas, foi um famoso jogador de futebol americano e atualmente é um dos mais respeitados comentaristas esportivos dos Estados Unidos.
O título do meu texto é o mesmo usado na obra escrita por ele em junho de 2021, logo após a morte de George Floyd. Na obra, o convite é acolhedor para todos aqueles interessados em conhecer mais sobre tudo o que as pessoas negras são submetidas diariamente.
De desigualdade a violência, passando por discriminação e humilhação pública, simplesmente por terem nascido com a pele escura. No entanto, o foco da minha conversa é o desconforto do dedo na ferida, mais uma vez exposta em um novo crime racial no futebol. Podemos conversar?
Luighi, do Palmeiras, chora ao sofrer racismo na Conmebol Libertadores Sub-20
Reprodução
É sempre desconfortável falar de racismo. O preconceito é desconfortável. Não pense que é prazeroso escrever sobre ou mesmo estar em frente às câmeras, diariamente, para falar de um tema que nos deixa com a cabeça a mil e que dispara centenas de gatilhos a cada desabafo, mas, como diz Gwendolyn Brooks, no poema “Cartilha para negros”:
A palavra negro tem poder geográfico,
atrai todo mundo:
negros de perto...
negros de longe...
negros onde quer que estejam
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Em Assunção, no Paraguai, mais uma vez a palavra negro estava no centro das atenções, mesmo que entoada de outras formas, dentro do seu poder geográfico.
No dicionário, a palavra “negro” tem vários significados, na vida, também, de afeto a carinho, passando também pelo preconceito. Para os racistas, usar o macaco como sinônimo de negro é a arma mais forte de desumanização, uma violência descomunal. O choro, a dor, a lágrima... só quem passa por isso sabe como o racismo dilacera por dentro. Luighi sentiu e foi desumanizado publicamente.
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Filósofo e cientista político camaronês, Achille Mbembe diz que “a era do humanismo está terminando”, baseado no crescimento das desigualdades em todo o planeta e na escassez do ciclo renovado de lutas de classe que tivemos ao longo da história.
Humanismo é o que nos falta quando falamos e tratamos diariamente sobre o preconceito racial. Humanismo esteve ausente nas arquibancadas do Estádio Gunther Vogel e na entrevista pós-jogo com o jovem jogador do Palmeiras.
O que esteve presente foi a grandeza incomum de um garoto de 18 anos, talvez inspirado por nomes como Vini Júnior, Lewis Hamilton e tantos outros expoentes contemporâneos na luta antirracista, Luighi precisava ser ouvido, mesmo que os preconceituosos se escondam por traz do pejorativo “mimimi”.
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Marcos Ribolli
A fala do talento palmeirense era um desabafo fundamental de alguém que precisava gritar, um choro entalado que nos tira do prumo, uma exposição que muda padrões, principalmente pelo impacto e alcance dela. No entanto, o momento é para Luighi cuidar da mente e não ser solicitado a falar o tempo todo sobre suas cicatrizes, até porque, de isolado o caso não tem nada. Isolado ficou o jovem palmeirense no Paraguai naqueles longos segundos de entrevista.
Refletir é necessário. Às vezes desconfortável, mas é preciso. Imagine quantos episódios o garoto já teve de superar para sentar-se em um banco de reservas e desabar em choro ao ser chamado de macaco, sabendo que os presentes no estádio compactuam com o crime cometido? Quantas cicatrizes o racismo já não deixou naquele corpo preto para além de ontem?
Estamos cansados de indignação seletiva, de manifestações de apoio em forma de nota de repúdio, hashtags, placas ou vídeos para engajar. Nada disso evita nossa dor ou resolve os crimes. Nada ser feito para coibir esse crime em campo mostra que estamos (sempre!) expostos.
A luta contra o racismo é real, precisa ser real. Na era das fakes, não parecer ser racista é melhor do que realmente não ser. Expor solidariedade na internet e não ter nenhuma atitude na vida é hipocrisia. E vivemos em uma sociedade hipócrita.
Nota de repúdio não é medida protetiva contra racista. A impunidade é cúmplice dos racistas, mesmo o esporte não se afastando dos direitos humanos, pelo menos na essência, e eles se sentem confortáveis para agir enquanto não são criminalizados e punidos.
É claro que combater o racismo não é simples e nem há fórmula mágica, mas resposta efetiva e direta contra racista provém de ações. Providência em nível institucional é mais do que obrigatório, de CBF a Fifa, de Palmeiras e Conmebol.
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Eu fui ensinado pela minha família, pela rua e pelos livros. Em casa, sempre foi replicado que “quem apanha jamais esquece” e o racismo é algo que jamais sai de nós. Assim como as cicatrizes, lembra?
Conivência e negligência andam lado a lado nos recorrentes casos de racismo no futebol. A impressão que dá, pondo mais uma vez o dedo na ferida e sendo desconfortável com você, amigo leitor, é que o único foco do esporte mais popular do mundo, atualmente, é o dinheiro.
Medida enérgica? Punição pesada? Quais temos? As placas de “Basta de Racismo” da CONMEBOL não nos livram de insultos. Notas oficiais de clubes, entidades e federações não vão resolver nenhum crime. Nada disso evita nossa dor.
E como podemos confiar em qualquer medida posterior a um novo caso de racismo, sendo que o futuro já está escrito com letras garrafais de um novo crime racista? A mudança urge sair da teoria e virar prática. O racismo enriquece, é lucrativo e combatê-lo na essência exige o rompimento de algumas barreiras, principalmente as que envolve poder e (MUITO!) dinheiro.
Só quem tem a carne cortada com a faca do racismo é capaz de sentir a dor profunda do preconceito racial. Um garoto de 18 anos se viu obrigado a carregar todas as atribuições que não deveriam ser dele por simplesmente ser negro. E negro tem poder geográfico.
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No fim do livro, assim como a conversa desconfortável que estamos tendo, Emmanuel Acho afirma que “acabar com o racismo não é uma linha de chegada que vamos cruzar. É um caminho que vamos percorrer”.
Por isso, encerro com a reflexão de que, nesse longo caminho que temos pela frente, silenciar não é uma opção. O silêncio também é cumplice. Quantas vezes o alvo do racismo vai precisar gritar para que alguém escute? A indiferença também é um potencializador de um crime racial. Neutralidade não existe quando se trata de racismo. Ou você combate ou você se torna parte do problema.
E nesse caminho longo que temos pela frente, você é aquele que vai percorrer todo o trajeto junto, de verdade, agindo afirmativamente contra um preconceito que mata ou vai silenciar diante de novas notas de repúdio? Eu já escolhi o meu lado. Se você ainda não escolheu, volte ao topo do texto, porque a conversa (ainda) não foi desconfortável o suficiente para você.
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